Evento em Moura reuniu especialistas para debater inovação, mão de obra e sustentabilidade na fileira do azeite. O 9.º Congresso Nacional do Azeite, organizado pelo Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL) e apoiado pela Câmara Municipal de Moura, reuniu os principais intervenientes da fileira oleícola portuguesa para discutir os desafios e as oportunidades do setor.

Na sessão de abertura, Manuel Norte Santo, Presidente do CEPAAL, afirmou que o congresso é «um momento de reflexão estratégica sobre o presente e, sobretudo, sobre o futuro de um setor profundamente ligado à identidade, à economia e à paisagem portuguesa».

O dirigente destacou o crescimento do setor, referindo que a produção de azeite em Portugal quintuplicou nos últimos 26 anos e que o país «se posiciona hoje entre os protagonistas internacionais da produção oleícola». Para Manuel Norte Santo, «Portugal afirma-se na vanguarda da produção de azeite ao conjugar qualidade reconhecida internacionalmente, inovação tecnológica e digitalização, sem perder o valor da experiência acumulada dos olivicultores».

O congresso evidenciou uma convergência entre tradição e inovação como condição essencial para garantir crescimento sustentável e reforçar a competitividade do azeite português.

Pedro Santos, Diretor-Geral da CONSULAI, apresentou o estudo "Evolução do Trabalho na Agricultura em Portugal", que revela uma redução para metade do número de trabalhadores agrícolas nas últimas três décadas, enquanto a produtividade mais que duplicou, impulsionada pela mecanização e profissionalização.

Em 2023, a agricultura gerou 3.362 milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB) com apenas 211,5 mil trabalhadores, reforçando o papel estratégico do setor na economia nacional e na gestão sustentável dos recursos.


No entanto, o estudo identificou fragilidades estruturais, como a dependência crescente de mão de obra estrangeira, que representa mais de 40% da força de trabalho agrícola, e o envelhecimento dos agricultores, cuja idade média atingiu os 59 anos. Apesar do aumento salarial superior a 50% na última década, os valores continuam abaixo da média nacional, dificultando a atração de jovens e profissionais qualificados.

Pedro Santos considerou que «o futuro dependerá da capacidade de combinar inovação tecnológica com valorização do capital humano, através de políticas públicas eficazes, investimento em qualificação e maior articulação entre empresas, associações e instituições de ensino».

Um painel dedicado à diversidade do olival português salientou a coexistência de diferentes modelos produtivos (sequeiro, regadio, tradicional e em sebe) como uma vantagem competitiva estratégica. Especialistas defenderam que o equilíbrio entre produtividade, sustentabilidade e resiliência é essencial para o futuro da fileira.

Foram ainda apontadas como prioridades a gestão eficiente da água, as alterações climáticas, a preservação de variedades autóctones, a investigação aplicada e a escassez de mão de obra.

Na área financeira, Eládio Petro Gonçalves, da Caja Rural del Sur, destacou a necessidade de «uma banca mais próxima e especializada» que responda aos desafios do setor, como a volatilidade dos preços, os custos energéticos e a necessidade de modernização das infraestruturas. Sublinhou a importância de soluções financeiras adaptadas, incluindo financiamento para novas plantações e projetos sustentáveis com condições bonificadas ligadas a critérios ESG.

O papel da Inteligência Artificial (IA) foi outro tema central, com especialistas a defenderem que esta tecnologia será fundamental para aumentar a competitividade, eficiência e sustentabilidade da fileira do azeite. A IA pode otimizar a rega, prever colheitas, controlar pragas e melhorar a eficiência dos lagares, transformando dados em decisões mais rápidas e informadas.


Os intervenientes alertaram para desafios como a cibersegurança, a fiabilidade dos dados e a necessidade de escalar projetos-piloto para operações reais. A recomendação foi para que os produtores comecem a integrar a IA, investindo em formação e escolhendo parceiros especializados.

No painel dedicado à valorização do azeite, produtores e especialistas destacaram a importância do posicionamento, design, inovação de produto e comunicação estratégica para transformar o azeite português num ativo de marca global. Foi sublinhada a necessidade de reforçar a valorização do azeite embalado e apoiar a internacionalização, especialmente das pequenas e médias produções.

O storytelling foi apresentado como uma ferramenta central para criar valor, influenciando a perceção do consumidor e o valor económico do produto.

Na keynote de encerramento, Álvaro Beleza, Presidente da SEDES, realçou a fileira do azeite como «exemplo de sucesso e transformação», afirmando que «a qualidade é um fator decisivo de criação de valor económico e reputacional». Enfatizou o papel dos agricultores como «guardiões do território e da sustentabilidade ambiental» e alertou para a necessidade urgente de reformas estruturais nas áreas fiscal, da justiça e do mercado de trabalho, além do reconhecimento da imigração como resposta ao declínio demográfico e suporte à economia nacional.

Álvaro Beleza concluiu que «Portugal precisa de mais visão estratégica, maior ambição económica e capacidade de transformar oportunidades em progresso sustentável».

A sessão de encerramento contou com a participação de Álvaro Mendonça e Moura, Presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), e de Ricardo Pinheiro, Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDR Alentejo), que reafirmaram o congresso como um espaço privilegiado para refletir sobre o futuro da fileira do azeite em Portugal.


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