O nome do mourense José Maria Garcia e do seu primo António Lobo de Vasconcellos, de Santiago do Cacém, fizeram história em maio do ano passado, depois de completarem uma das provas de trail running mais extensas e difíceis de sempre: a Maratona do Everest no Nepal, onde os trilhos dos Himalaias desafiaram os atletas a resistir e a superar-se durante 42 km.

O atleta da equipa de Trail da Casa do Benfica em Moura, além de ter ultrapassado todas as barreiras do percurso, estabeleceu um novo record ao alcançar o 43ª lugar na classificação (215 participantes) e o 10º lugar entre os atletas estrangeiros (60).

Em outubro do mesmo ano, o foco e a determinação levaram-no até à edição da MDS 120 Morocco, uma das variantes oficiais do mítico Marathon des Sables, considerada uma das provas de resistência mais exigentes do mundo.

A competição realizou-se em três etapas, em pleno deserto do Sahara marroquino, em regime de auto-suficiência. Cada atleta transportou a sua própria alimentação, equipamento e material de campismo, recebendo apenas, da parte da organização, 5 litros de água por dia e tenda. As temperaturas chegaram aos 40. °C, com terrenos agrestes, vento e poeiras.

Ainda não passou um ano e seguem-se novos objetivos, aliados a outros destinos e competições. O runner já definiu as provas em que irá participar tendo sempre o parâmetro do “equilíbrio” enquanto meta. 

“A minha ideia é um ano fazer essas provas e no ano seguinte, fazer provas mais competitivas e de montanha mais pela Europa. Este é o ano mais competitivo”, indica o runner com a agenda já programada. “No fim do mês, tenho uma prova em Monsaraz de 30 km e em maio tenho outra na Serra da Estrela de 50 km e que pela primeira vez se faz em Portugal. É uma prova do circuito mundial. Em junho vou a Andorra fazer uma prova de 80 km e a prova deste ano é em agosto, que é a principal prova do mundo, o Ultra Trail Mont-Blanc (Chamonix, França) que já fiz há três anos 55 km. Este ano vou fazer os 101 km”.

Resistência, resiliência e força de vontade, características que definem este apaixonado por corridas.

“Aos poucos e a cada ano que passa, aumento um pouco a distância, porque na minha opinião não faz sentido abusar do nosso corpo, devemos respeitá-lo a ele e à modalidade. Há certos atletas, que ao fim de um ano ou dois a correr, já fazem provas de mais de 100 km e isso a mim não me faz sentido porque devemos pensar a longo prazo. Desta maneira o corpo e a cabeça não resistem. Há pessoas que ao fim de pouco tempo fazem provas destas e depois perdem a vontade de correr porque já fizeram o máximo que existe”.

Todas as competições são da máxima importância para o atleta e nenhuma tem menor relevância. “A prova da vida para mim são todas e dou valor a todas, assim como à preparação. A prova é só um dia e a preparação para esta (Himalaias) foram oito meses e é onde sofro mais, mas também onde mais me divirto”.

Exigente nos treinos, José Maria Garcia revela que as regras de alimentação são cumpridas, já as de descanso, concretamente as horas de dormir, nem por isso.

“Na alimentação sim, nas regras do dormir é onde falho mais, mas na alimentação não falho muito e nos treinos, só não vou se não conseguir mesmo, mas cada prova é uma prova. Por exemplo a do deserto (Sahara marroquino), treinei sempre à hora de almoço no verão em Moura, com uma mochila com6, 7 e 8 kg às costas porque queria preparar-me não só para o peso, como para o calor. Na prova do Everest treinei mais as descidas porque sabia que tinha lá descidas muito perigosas, levei vários meses a treinar descidas e com uma máscara para reduzir o oxigénio. O trail é mais dinâmico, todas as provas são diferentes com estratégias e alimentação diferentes. A preparação é interessante porque tenho que analisar o percurso, o que vou comer, beber, quando é que vou caminhar e correr mais depressa. Eu adoro esta parte da preparação”.

Os momentos de convívio e de alguns excessos alimentares fazem parte deste autocontrole moderado, por isso José Maria Garcia considera que os momentos de convívio são essenciais.

“É preciso haver um equilíbrio. Se comparar com o que fazia há três ou quatro anos, vou menos a esses convívios, bebo menos, nem se compara. Não posso cortar a 100% senão também não fico bem e para mim isso não faz sentido”.