No início deste mês de janeiro, o percurso temático “Os Alvores do Período Romano”, organizado em parceria com o Turismo e Arqueologia da Câmara Municipal de Moura, levou os visitantes a percorrer a zona histórica do Castelo Velho de Safara, descrito como “um dos sítios arqueológicos mais emblemáticos do nosso concelho”.A descoberta de tão especial …

No início deste mês de janeiro, o percurso temático “Os Alvores do Período Romano”, organizado em parceria com o Turismo e Arqueologia da Câmara Municipal de Moura, levou os visitantes a percorrer a zona histórica do Castelo Velho de Safara, descrito como “um dos sítios arqueológicos mais emblemáticos do nosso concelho”.
A descoberta de tão especial e grandioso achado é conhecida pelo menos desde 1969, mas só em 1985 “são lançadas as primeiras hipóteses sobre a história da sua ocupação”, de acordo com dados da autarquia de Moura. Em 2010 é feito “um levantamento topográfico das estruturas evidentes no local”, onde se dá conta da “sua muralha circundante e de várias linhas de fossos defensivos”.

Para nos situarmos na história, nada melhor do que conversar com alguém que conhece de perto o local.
A arqueóloga Mariana Nabais, formada pelo Institute of Archaeology, University College London, Reino Unido e com vasta experiência em investigação no âmbito da zooarqueologia e reconstrução paleo-ambiental, com principal foco em cronologias do Paleolítico na Península Ibérica, guiou-nos por esta zona “mítica” e praticamente única no mundo, como mais à frente iremos perceber.
Com raízes familiares em Safara, foi o sogro, António Vidigal, “nascido e criado” na localidade, que lhe deu a conhecer o Castelo Velho de Safara e foi “o grande impulsionador” deste seu interesse.
Nas suas diversas pesquisas, Mariana Nabais recolheu dados de grande relevância. O sítio arqueológico é conhecido pela população “desde há muitos anos para cá, porque fica na confluência da Ribeira da Safareja com o rio Ardila. É um local lindíssimo, onde as pessoas iam em tempos idos lavar a roupa, ou iam à pesca e onde se faziam muitos piqueniques e também local para tomar umas banhocas”.

A arqueóloga revela que a zona era conhecida como “os Castelos”, mas não se sabe porque era designada dessa forma. “A verdade é que ali existe um grande povoamento muito antigo, com umas muralhas muito densas, mas que com o passar dos anos e com a vegetação que ali foi crescendo, ficou muito pouco visível”.
A valorização histórica e patrimonial despertou interesse internacional de estudantes de universidades conceituadas. “Desde junho de 2018 que a Escola Internacional de Campo de Arqueologia South-West Archaeology Digs está no local a fazer escavações sistemáticas”, acompanhadas e coordenadas por Mariana Nabais. “Escavamos duas vezes por ano, uma em janeiro e outra em julho, com alunos de todo o mundo, mas com principal incidência de estudantes que vêm da University College de Londres, no Reino Unido, da Macquarie University, em Sidney, na Austrália e também dos Estados Unidos, sobretudo da DePaul University, em Chicago”.

O interesse científico e o lado emocional conjugam-se na perfeição quando se está perante um edificado do género. Que passado é este? O que foram as sociedades, de que forma viveram e como evoluíram?
Mariana Nabais responde: “Sabemos que existe uma ocupação pré-histórica da Idade do Cobre do III milénio antes de Cristo (a.C.). Depois, o sítio terá sido ocupado na II Idade do Ferro, mais ou menos a partir do século IV a.C. e terá sido também ocupado pelos romanos quando começaram a conquistar a Península Ibérica (P.I.) no século II a.C. Já existiria no Castelo Velho de Safara uma população indígena da qual sabemos muito pouco e os romanos ao conquistarem toda a P.I., também ali se instalaram e são eles que constroem esta grande fortificação que ainda somos capazes de identificar e também algumas das casas que lá estão e que nós temos estado a descobrir”.

Mais do que uma experiência de trabalho e de aprendizagem, para os estudantes que têm a oportunidade de contribuir para a evolução do projeto arqueológico e conhecer os costumes de Safara, tem sido muito gratificante.
“Estes alunos vêm inicialmente por causa da arqueologia, mas a sua experiência vai muito mais além disso porque fazemos questão de ter uma alimentação tradicional, portanto ficam a conhecer uma série de pratos regionais que não teriam oportunidade de experimentar em outro sítio, sobretudo nos Estados Unidos da América ou na Austrália e participam nas festividades que acontecem em Safara. Ainda agora tivemos escavação durante as Festas de São Sebastião. Fizeram parte de todas as atividades como a largada e a procissão. Levam daqui não só uma experiência arqueológica, mas também uma experiência cultural, portuguesa e alentejana”.
A integração dos alunos com a comunidade também tem sido muito positiva. “É muito engraçada a interação dos alunos estrangeiros com a população local. Ao princípio parecia um bocadinho estranho ter um grupo de jovens de todas as nacionalidades e de todos os antecedentes culturais e religiosos diferentes e hoje em dia, já se recebem com mais naturalidade”.

O Castelo Velho de Safara não é só um dos mais “importantes povoados fortificados do Alentejo”, é uma herança única no mundo. “É um legado importantíssimo sobretudo para região do Alentejo que a nível arqueológico foi muito prospetada com a construção da Barragem de Alqueva. Se se olhar bem para o território aparecem uma série de registos arqueológicos na zona que está submersa pela barragem. Como a zona de afetação da barragem não vinha mais a sul onde se encontra Safara, foi de alguma forma esquecida a prospeção deste território. Portanto, parece que ninguém vivia ali na Pré-História, nem na Idade do Ferro. Viviam muitas pessoas da mesma forma que viviam no resto do país, pura e simplesmente não tinha havido um interesse dessas realidades”.

A arqueóloga refere ainda que o monumento “está extremamente bem preservado, porque não foi afetado por alfaias agrícolas. Este terreno onde nós trabalhamos, é maioritariamente utilizado para a produção animal e, portanto, é espetacular a preservação das paredes com 2 metros de altura que foram feitas no século I a. C. e ainda estão preservadas. Vemos as portas, os degraus, conseguimos entrar dentro das casas, vemos a fortificação, as valas de defesa. Nesse aspeto é único porque tem uma preservação incrível e não há muitos sítios que tenham esta visibilidade tão boa como encontramos em Safara. Também acho que é por isso que os alunos estrangeiros quando vêm se entusiasmam bastante porque não vêm só ver uma ruína do que ali aconteceu. Vê-se efetivamente o povoamento”.
A escavações têm levado a descobertas espetaculares. “Temos uma quantidade de achados de cultura material incrível. Potes de cerâmica, de ânforas, de taças e tijelas importadas da Grécia, de Itália, do Sul de Espanha que viriam parar ao Castelo Velho de Safara. O interesse que costumamos ter é que mesmo na Idade do Ferro, aquele edifício seria um interposto comercial bastante importante e que terá continuado durante a idade Romana. Inclusivamente até encontrámos um osso de baleia o que quer dizer que há realmente contactos com a zona costeira e com outros países da bacia do mediterrâneo. Não era um sítio isolado, mas sim altamente populado e em contacto com o resto do mediterrâneo”.
As escavações estão longe de terminar, neste que é um trabalho contínuo. “Tivemos este ano a 11ª campanha de escavação, já estamos a escavar há oito anos em Safara, o povoado é enorme, fizemos já alguns estudos e levantamentos topográficos para perceber que tem uma dimensão de 1.36 hectares. Há uma imensidão ainda por escavar”.

A curiosidade adensa-se pela descoberta de um cemitério perto das casas e zonas de habitação. “Terá que haver uma necrópole ou um cemitério nas imediações que ainda não encontrámos. Andamos a fazer prospeções para tentar encontrar esses enterramentos ou esqueletos ou cremações. De qualquer forma num futuro próximo, vamos começar a abrir uma nova frente de trabalho que se dedique mais à época Pré-História da Idade do Cobre”.
A “imensidão” de terreno ainda por investigar é para continuar, assim estejam reunidas algumas condições. “Enquanto tivermos energia e vontade e o apoio das universidades, da Câmara Municipal de Moura, da Junta de Freguesia de Safara e de todos aqueles que nos queiram apoiar, estaremos sempre a trabalhar”.