Entrevista a Ricardo Albuquerque, o novo presidente da Ordem dos Médicos sub-região de Beja
Ricardo Albuquerque assumiu recentemente a presidência da nova direcção da sub-região de Beja da Ordem dos Médicos. Em entrevista à Planície, o especialista em Medicina Geral e Familiar traçou os principais objectivos do quadriénio 2025/2029 no que diz respeito aos cuidados de saúde no Baixo Alentejo e à valorização da carreira de medicina. A nova …
Ricardo Albuquerque assumiu recentemente a presidência da nova direcção da sub-região de Beja da Ordem dos Médicos. Em entrevista à Planície, o especialista em Medicina Geral e Familiar traçou os principais objectivos do quadriénio 2025/2029 no que diz respeito aos cuidados de saúde no Baixo Alentejo e à valorização da carreira de medicina. A nova direcção pretende ser a “voz activa de todos os médicos na região”, defende o Serviço Nacional de Saúde e reconhece que o modelo dos Cuidados de Saúde Primários em Beja “precisa de uma reestruturação”.
“Enquanto direcção da sub-região de Beja da Ordem dos Médicos, estabelecemos seis pilares fundamentais para este mandato. Em primeiro lugar, pretendemos defender a essência e as virtudes do Serviço Nacional de Saúde e do acto médico, preservando os valores fundamentais da medicina. Simultaneamente, comprometemo-nos a promover eventos científicos e de interesse social, fomentando o diálogo de qualidade entre profissionais e comunidade, e a estabelecer um fórum de diálogo institucional para a solução de problemas e intermediação de conflitos, criando pontes entre diferentes entidades. Outro objectivo central é voltar a atribuir o prémio anual aos internos, reconhecendo o mérito e incentivando a formação de excelência na região. Paralelamente, assumimos o compromisso de ser uma voz activa de todos os médicos da região contra o assédio moral nas instituições de saúde, defendendo a dignidade profissional. Por fim, pretendemos contribuir para a defesa da Região de Beja, promovendo parcerias estratégicas com entidades locais”.
Sobre a questão da falta de médicos de saúde no distrito, Ricardo Albuquerque reafirma que o modelo para captar jovens médicos “não é atractivo”.
“Tendo em conta os dados disponíveis na plataforma Bilhete de Identidade dos Cuidados de Saúde Primários, estes 19 mil utentes representam 16% da população inscrita (121.000). Quando comparamos com o distrito vizinho de Évora, que tem apenas 7% da população inscrita sem médico de família (12.000) mas está coberta na sua maioria com Unidades de Saúde Familiar (USF), é legítimo afirmar que o modelo dos Cuidados de Saúde Primários em Beja precisa de uma reestruturação. Não conseguimos captar profissionais activos porque os modelos existentes não são atractivos para os jovens médicos, quer em termos de equipas de saúde, quer em termos remuneratórios. O Conselho de Administração da ULSBA está ciente desta situação e tudo tem feito para que Beja se aproxime dos modelos dos distritos vizinhos, quer com vagas carenciadas, quer na abertura para constituição de novas USF. No último concurso para Medicina Geral e Familiar as vagas existentes para Beja não foram totalmente preenchidas, ainda assim, as duas únicas unidades que conseguiram atrair novos médicos foram as duas USF do distrito”.
A ordem está ciente que esta carência médica, “tem um impacto profundo e multidimensional nas comunidades do distrito de Beja”. “A nível de saúde, observamos o aumento das idas desnecessárias ao serviço de urgência, sobrecarregando o hospital e criando tempos de espera excessivos para situações que poderiam ser resolvidas nos cuidados primários. A ausência de acompanhamento médico regular compromete gravemente a prevenção e o controlo de doenças crónicas, particularmente relevante numa população envelhecida como a nossa”.
Já do ponto de vista social, “esta situação gera desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, afectando especialmente as populações mais vulneráveis e rurais. A longo prazo, esta carência contribui para o despovoamento da região, uma vez que a qualidade dos serviços de saúde é um factor determinante na decisão das famílias de permanecer ou abandonar o território”.
O presidente da direcção da sub-região de Beja da Ordem dos Médicos comentou, a pedido da Planície, o encerramento temporário de alguns Serviços de Urgência da ULSBA devido à falta de médicos para assegurar as escalas.
“Como representantes locais, o nosso papel centra-se no acompanhamento das condições de exercício da medicina na região e no diálogo com as instituições para encontrar soluções que garantam tanto a qualidade dos cuidados prestados como a dignidade do exercício profissional. Remetemos esta questão para os órgãos competentes da Ordem dos Médicos a nível nacional, que têm a autoridade e os meios adequados para se pronunciar sobre estas decisões de gestão hospitalar”.