“É lamentável que as nossas taxas de aleitamento materno estejam tão abaixo do desejável” – Enfermeira Jesus Caeiro do Centro de Saúde de Moura
Na Semana Mundial do Aleitamento Materno assinalada de 1 a 7 de agosto, impõe-se uma reflexão sobre este processo biológico que é muito mais do que uma ligação para a vida entre mães e filhos. O slogan da temática deste ano diz-nos que é preciso priorizar a amamentação para que sejam criados sistemas de apoio …
Na Semana Mundial do Aleitamento Materno assinalada de 1 a 7 de agosto, impõe-se uma reflexão sobre este processo biológico que é muito mais do que uma ligação para a vida entre mães e filhos.
O slogan da temática deste ano diz-nos que é preciso priorizar a amamentação para que sejam criados sistemas de apoio sustentáveis e pretende com esta frase, mobilizar a sociedade para o impacto deste acto, apesar de não ser a primeira vez que os dois assuntos se relacionam.
As campanhas de aleitamento materno em exclusivo, sem suplementos alimentares, continuam a ser urgentes já que as taxas de amamentação exclusiva até aos 6 meses são demasiado baixas no nosso país, um assunto que passou a ser uma prioridade.
Para percebermos a importância deste processo, conversámos com a enfermeira da ULSBA, Jesus Caeiro, especialista em Saúde Materna e Obstétrica nos Centros de Saúde de Moura e Barrancos.
Começou por falar na questão da sustentabilidade relacionada com a amamentação. “O aleitamento materno além de ser o melhor alimento que se pode dar ao bebé, é de facto algo que é sustentável para a sociedade e para o planeta e cada vez mais temos que nos preocupar com estas questões da poupança de energia e de água que vem com a alimentação artificial”.
Para as recentes mães que vivem esta fase, Jesus Caeiro elucidou com as recomendações da Organização Mundial de Saúde. “A OMS diz que um bebé deve mamar em exclusivo até aos 6 meses de idade e a partir desta altura, deve fazer um complemento da amamentação com outro tipo de alimentação que pode ir até aos 2 anos ou mais. Neste caso, está de acordo com a disponibilidade e o que seja possível para a mãe, para a família e para o bebé”.
Sobre os benefícios do aleitamento materno em exclusivo, nunca é demais enumerar os benefícios para o bebé. “Prevenção de doenças respiratórias, doenças gastrointestinais como as diarreias e promoção da saúde, entre outros. Há vários estudos realizados que comprovam que o aleitamento materno influencia o desenvolvimento cognitivo, ou seja, estamos a falar de bebés mais inteligentes efectivamente”, esclareceu a enfermeira.
Para a mãe, as vantagens também são muitas. “Amamentar é profiláctico para a mulher quer em termos de prevenção do cancro da mama, quer em termos de prevenção de outras doenças como a Diabetes ou a Hipertensão”, referiu a profissional de saúde, além da redução do cancro do ovário e de doenças metabólicas que afectam o organismo da mulher.
No entanto, apesar das campanhas de aleitamento materno, os números em Portugal são reduzidos. “É de lamentar que as nossas taxas de aleitamento materno estejam tão abaixo do que seria desejável. Quando eu falo nas taxas estou a basear-me nas metas. A nossa meta seria que 50% dos nossos bebés fossem amamentados em exclusivo até aos 6 meses de idade e não é isso que realmente se passa porque estamos muito abaixo deste valor”, adiantou a especialista em Saúde Materna e Obstétrica nos Centros de Saúde de Moura e Barrancos. Sublinhou que para 2030, a meta do pais seria “chegar aos 70%”, números ambiciosos que só serão alcançados com a continuidade de campanhas de informação e “medidas conjuntas”.
Os anos de experiência de Jesus Caeiro e de contacto com inúmeras mães, ditam a consciência de que a amamentação é um processo difícil e que nem sempre é passível de concretização. O recurso, em muitos casos, é a alimentação suplementar.
“De facto, a indústria farmacêutica e os leites artificias estão cada vez melhores e ainda bem, para combater aquelas situações em que é impossível ou que não é de todo possível manter a amamentação. No entanto, há uma tendência muito fácil de cair nesta tentação porque infelizmente, apesar de ser um processo todo ele natural, é desafiante nos primeiros meses de vida de um bebé, nos primeiros dias em que a mulher vem da maternidade, sobretudo porque requer uma dedicação, entrega e tempo que nós mulheres muitas vezes não temos. Também pelo adiar da maternidade e o facto de termos mulheres muito activas e que trabalham”.
A experiência da maternidade é exigente sobretudo no que diz respeito a horários. “O bebé quer mamar muitas vezes porque tem de ser assim e o suplemento acaba por trazer um alívio enorme porque o bebé dorme mais horas porque tem fome. Isto é um erro e também é lamentável da parte dos profissionais de saúde que não haja (de todos nós), a mesma conduta para mantermos a amamentação em exclusivo”, reflectiu. A especialista relembrou ainda que em Portugal, a Semana Mundial do Aleitamento Materno comemora-se não só em agosto, mas também em outubro, o mês da prevenção do cancro da mama, onde estão previstas acções no Centro de Saúde de Moura durante a primeira semana do mês 10.