A memória das compras no Rosal De La Fronteira e a passagem pela alfândega
As memórias, sobretudo as boas e é dessas que falamos hoje, perduram no tempo e projetam-nos para momentos, experiências e emoções inesquecíveis. Para a geração pós Espaço Schengen, Rosal de la Frontera é um ermo sem graça, local de passagem ou nem isso. Para a minha geração era uma feira vibrante, ou a nossa Rua …
As memórias, sobretudo as boas e é dessas que falamos hoje, perduram no tempo e projetam-nos para momentos, experiências e emoções inesquecíveis.
Para a geração pós Espaço Schengen, Rosal de la Frontera é um ermo sem graça, local de passagem ou nem isso. Para a minha geração era uma feira vibrante, ou a nossa Rua Augusta, vá.
Na altura do Natal havia filas. Duas. Uma na alfândega, onde as pessoas se amontoavam para ir mostrar identificação e etc, a outra, antes, onde as pessoas escondiam metade das coisas que compravam. "Que assuisse" dizia a minha avó, para descrever o desassossego que para ali ia, por receio de confiscos por suspeita de contrabando. Também o nosso carro não era exceção. Quando a minha mãe achava, bom é capaz de ser demais hoje, "camuflavam-se" alguns artigos nos bancos ou debaixo das saias das senhoras.
No verão compravam-se lá sapatos de lona com sola de corda para todos os gostos, gelados diferentes dos nossos (Menorquina, Camy…) e refrescos super populares como a Fanta. Brinquedos, era lá. Pequenos electrodomésticos, também. Numa só rua cabia um mundo inteiro. A casa Mário era um ex-líbris. O meu pai e o senhor do estabelecimento cumprimentavam-se com uma alegria de amigos. "Manolo, que tal?" E o tal Manolo (filho do Mário que deu o nome à casa), como um cantor saído de um postal dos anos 40, cumprimentava-nos e oferecia-nos quase sempre uma guloseima.
Bom, regra geral, os espanhóis tinham motivos para serem simpáticos com sus hermanos; os nossos carros iam para lá vazios, vinham cheios. Com mais ou menos medo da alfândega (dependendo do guarda que "se apanhava" mais até do que propriamente da carga) lá ia correndo o negócio.
A melhor história que ouvi contar desses tempos foi o de um passeio de um grupo de paroquianos com o respetivo padre ao Rosal. Com certeza por efeito do calor andaluz, misturado com a abundância de artigos em "rebajas" em desfile por entre as laranjeiras, várias paroquianas deixaram-se levar pelo empolgamento das compras femininas em grupo, acicatadas ainda pelo doce canto de sereia da lojista dos tecidos. Quando lhes caiu a ficha foi já a caminho da alfândega. Imagino-as agora, quais baratas tontas ao verem a luz, olharem em redor e onde, onde (?!?!) disfarçar agora a preciosa e anafada carga? Imagino as cabeças, uma a uma, a virarem-se na direção da tábua de salvação… Uma, após outra, iluminadas pelo mesmo pensamento! Melhor que no banco do carro com elas em cima, melhor que por baixo de umas saias leves de verão… melhor que tudo! Encarecidamente, entusiasticamente e outros mentes, rogaram então ao padre acompanhante, que as ajudasse a "camuflar" as peças debaixo da batina. O pobre do padre, se a princípio se terá negado, imaginem o que é terem um piar galináceo em coro à vossa volta, envolto num pânico tão infantil como o de uma criança que só chora quando fica com medo que descubram que foi ela quem acabou com o açúcar na despensa.
Finalmente, o prior lá declarou que esconderia algumas peças, sim, mas que não contassem com mentiras da sua parte. "Caso me perguntem na alfândega se levo algo comigo, não poderei mentir."
A tensão na carrinha devia ser tanta que até ao nariz do guarda de serviço chegou, pelo que, quando encarou o padre, olhou-o de alto a baixo, como uma águia aguçando a vista. E do alto da sua farda lançou um "E o sr. Padre, o que leva aí?" acenando com a cabeça na direção da barriga, de onde pendiam, os tais tecidos, já suados, nesta altura do campeonato, de certeza. O Padre, engoliu em seco, mas, recuperando a presença de espírito, para alívio das suas ovelhas, respondeu: "Boa tarde, senhor agente. O que levo aqui é algo próprio para senhoras, mas que nunca foi usado…"
E, perante isto, lá passaram, ovelhas com seus adoráveis projetos de cortinas, vestidos e colchas; guarda fronteiriço sem resposta e Sr. Padre mantendo tranquila a sua virtuosa consciência, uma vez que nada foi dito que não fosse verdade.
Lurdes Fachadas