Morcegos põem em causa o bloco de rega de Moura
Publicado | 2019-05-07 04:25:04
 
Segundo a Declaração de Impacte Ambiental (DIA) do Circuito Hidráulico Moura/Póvoa/Amareleja e respectivos blocos de rega, vai haver várias restrições nas terras agrícolas abrangidas no bloco de rega de Moura, devido a edificação dos morcegos.
 
O novo Perímetro de Rega de Alqueva vai ter dois novos Bloco de Rega, situados no concelho de Moura.  
A nova estrutura vai beneficiar 10.000 hectares junto às povoações de Amareleja, Estrela, Moura e Póvoa e representa um investimento público que ultrapassa os 36 milhões de euros. 

O Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Luís Capoulas Santos, na cerimónia da apresentação dos dois novos Bloco de Rega, situados no concelho de Moura, que decorreu na última Feira de Setembro em Moura, em entrevista à Planície explicou a importância deste projecto para a região.

“Este empreendimento abrange zonas de pequena e de grande propriedade, actualmente ocupadas maioritariamente com olival tradicional e vinha, que serão percorridas por um circuito hidráulico principal com cerca de 15 km de extensão. Este projecto inclui uma estação elevatória e dois reservatórios que vão abastecer a rede de rega, que se estende por 130 km. Está prevista a instalação de uma central fotovoltaica na albufeira de Alqueva, que compensará o acréscimo de energia consumida na estação elevatória associada.”  
Aponta-se para que a obra possa estar concluída em 2023.
Por seu lado, o presidente da EDIA, Pedro Salema, na mesma cerimónia, sublinhou à Planície que  “se encontra numa fase de Projecto de execução e constitui o principal objectivo caracterizar e avaliar os principais impactes ambientais que podem resultar da implantação do Circuito Hidráulico Póvoa-Moura e respectivos Blocos de Rega, e propor as medidas consideradas relevantes para a minimização dos impactes identificados, procurando assim a adequada compatibilização entre o projecto e o meio ambiente envolvente. 
Assim como a análise das características do Projecto de Execução, considerando o conteúdo dos seus projectos específicos, nomeadamente Tomada de Água e Estação Elevatória, Sistema Adutor, Reservatórios de Regularização, Traçado e Equipamento da Rede de Rega, Rede Viária, Rede de Drenagem, entre outros.”
A declaração de Impacto Ambiental, entretanto publicada, veio levantar algumas preocupações aos agricultores, devido às condicionantes que apresenta ao projecto, nomeadamente a protecção aos morcegos.

A Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos e a Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo emitiram um comunicado em conjunto em que expressam a sua preocupação sobre as condicionantes apresentadas na declaração.

 O presidente da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos, José Duarte, sublinhou à Planície que “nós estamos muito preocupados com a declaração de impacto ambiental que foi emitida pela Agência Portuguesa, onde existe um conjunto de condicionantes para protecção dos morcegos. A criação de um raio de 10 km do abrigo dos morcegos, que se situa no paredão da Barragem, uma área na qual está proibida a instalação de estufas e de culturas permanentes com uma densidade superior a 278 árvores por hectare, e a instalação de novas culturas de regadio com áreas superiores a 40 hectares de mancha contínua.”
José Duarte acrescenta que “nós questionamos a limitação de manchas contíguas de área superior a 40 hectares da mesma cultura nos parece passível de ser questionada, uma vez que não só a região de Moura está densamente povoada por olival há muitos séculos – durante o século passado aqui se situava o maior olival contíguo do mundo - factor garante do grau de adaptação da fauna e flora locais, como esta condição poderá levar a situações manifestamente injustas junto dos pequenos proprietários do Concelho, que, se num caso hipotético os vizinhos acumularem uma área contígua de 40 hectares, se verão impedidos de ter acesso ao projecto, o que resultaria num absoluto contra-senso após décadas de Emparcelamento promovido pelas Entidades Públicas competentes.”
O presidente da Cooperativa adianta que “num concelho que se encontra, em cerca de 2/3 da área, sujeito às condicionantes da Rede Natura 2000, e que é o ultimo a ser beneficiado pelo Projecto Estratégico Nacional instalado na própria região, a expectativa, por parte dos agricultores, garante da manutenção do tecido social, económico, paisagístico e ambiental do Concelho de Moura, é de que a sua voz possa também ser ouvida, a par de todas as outras entidades consultadas no âmbito da Declaração de Impacte Ambiental do Circuito Hidráulico de Póvoa-Moura.”
José Duarte deixa ainda uma mensagem ao poder político. “Ouve-se muito os políticos falarem do combate à desertificação no interior, mas depois quando é para tomar decisões que ajudem a fixar a população ao interior, principalmente os jovens, criamos sempre um conjunto de condicionantes que inviabilizam essa fixação. De uma vez por todas, o poder político tem que intervir na defesa do interior e, só o consegue criando condições para desenvolver a agricultura e tem que passar sempre pelo regadio.”
A Câmara Municipal de Moura, uma das entidades consultada para apresentar parecer, manifesta algumas preocupações sobre os impactes no uso do solo, uma vez que a maioria das áreas abrangidas pelos blocos situa-se em RAN e REN. 
Assim na síntese da autarquia salienta-se “que o projecto em análise se enquadra nos instrumentos de gestão territorial aplicáveis.” No entanto acrescenta que “esta situação pode contribuir para a progressiva degradação destes solos, sobretudo se a agricultura que aí for praticada assentar na monocultura e exploração intensiva da mesma.” O documento acrescenta ainda que “o aumento cada vez maior nesta região de áreas de olival intensivo e outras monoculturas contribuirá para a erosão dos solos e biodiversidade de fauna e flora aí presentes.”
 



Leia esta notícia na integra na edição impressa do Jornal «A Planície»
Untitled Document Untitled Document Untitled Document
36 35
17 17
 
 
 
 
 
 
 
 
Untitled Document
 
    © 2015 - Sociedade Editorial Bética, Lda