Espírito de Natal
Publicado | 2020-12-23 04:38:23
 
Era um final de dia, cinzento e húmido, como tantos outros. As amplas janelas do escritório já pouca luz deixavam entrar.
 

Sentou-se em frente dos 7m2 de mogno africano, cercado por opulentas estantes da mesma madeira nobre e escura, aborrecidamente contrariadas pelas cores sóbrias das enciclopédias, dossiês e calhamaços que lhe preenchiam as entranhas e que tocavam o teto pérola donde começava a emanar uma luz envergonhada pelas aberturas cuidadosamente camufladas. Tudo o resto, os sofás de cabedal cinzento, os móveis, os quadros valiosos, o relógio, a grande mesa de vidro e aço e a dúzia de cadeirões também forrados a pele…tudo do mais requintado gosto, mas invariavelmente triste e escuro, como a sua alma! Até as jarras da mais fina porcelana, tinham arranjos de flores, magníficos sim, mas não indo além do verde-escuro ao vermelho-púrpura, a condizer com o enorme tapete persa que cobria o mármore cinzento claro do chão. Há dias tinha chegado um arbusto cintilante e colorido que se escondia num canto, perfeitamente deslocado e fora de tom. Verificou os últimos documentos da pasta de couro preto. Nada de novo. Relatórios, números, pareceres e alguns despachos ou documentos para assinar. Ah! Dois cheques de quantias, mais que generosas, endereçados a duas Instituições especiais. Uma, responsável pela ajuda e tratamento a crianças doentes e necessitadas. Outra, numa combinação “pouco provável”, de acolhimento e socorro a jovens com problemas disfuncionais ou de drogas e idosos despejados na rua ou esquecidos por quase tudo e quase todos. Assinou os cheques, os olhos embaciaram-se e permitiu a si próprio um suave sorriso. Conhecia bem Instituições e os seus responsáveis, criteriosamente escolhidos, autênticas fontes de vida e calor, cada vez mais raras na montanha de rocha dura e fria em que a sociedade se tornara. Orgulhava-se do destino dado à avultada, mas no fim de contas, modesta contribuição. Só tinha imposto uma condição, o absoluto anonimato!

Reverificou o correio eletrónico…cheio de vulgaridades e bajulações, sem conteúdo. Tinha de sair dali! Precisava dum ombro amigo, de alguém que o escutasse, de gritar, de chorar, de rir, sobretudo de rir!...Mas os amigos verdadeiros afastaram-se ou foram afastados! E a família? Já sem pai, a mãe num lar; a irmã, cada vez mais isolada, demasiado ocupada com as amigas e as viagens…A mulher deixara-o, cansada dele ou… da falta dele. Os filhos cada vez mais longe e distantes. A filha, jovem e brilhante pediatra, enveredara pela ajuda voluntária aos mais necessitados nos mais recônditos e perigosos lugares do mundo. O filho gestor, venceu a toxicodependência, deixou o lugar na administração das empresas do pai e assumiu o sonho de ser artista, de pintar…nas ruas,…nas cidades das mais diversas paragens…Passavam-se semanas que não falava com eles, meses em que não os via! Sentia o crescer duma vontade incontrolável de os abraçar e…não conseguiu evitar que as lágrimas corressem pelo rosto seco e cansado.

“Chega!”. Levantou-se num pulo, arrancou o sobretudo antracite do cabide com o cachecol vinho tinto agarrado e as luvas pretas nos bolsos. Ignorou os telemóveis, escancarou a porta do escritório e saiu sem nada dizer, rumo ao elevador. Deu por si na rua. Abrandou, havia demasiadas pessoas, demasiadas luzes. Deambulou por ruas e ruelas e esbarrou com um café, aspirante a cervejaria, numa esquina duma travessa mal iluminada. Entrou! Média luz. Dois ecrãs emitiam desporto…futebol! Que algazarra! Estava cheio de todo o tipo de pessoas e idades, só não viu crianças. Bem talvez mais homens…mas sobretudo gente simples e muito barulhenta. Cascas de amendoins e de tremoços pelo chão. O granito polido do balcão com migalhas, cascas, copos cheios e vazios, restos de vinho e cerveja… finalmente, um cheiro forte, mistura azeda de fritos, álcool e suor…uma envolvente de fumo, completava o ambiente. Há anos e anos que não entrava num lugar parecido. Mas sentiu-se, pasme-se, bem melhor! Deu por si ao balcão comendo “bofe frito”, azeitonas, carne em molho de tomate, “jaquinzinhos” fritos já frios, e sei lá mais quantas mais “iguarias”. Bebeu uma, duas, três…até perder a noção de quantas cervejas. Viu-se no meio de vários “novos amigos”, a falar, a discutir, a rir, a gritar. Pagou rodadas a todos eles. Retribuíram-lhe com a mesma moeda! Sentiu-se alegre, quase feliz. Mas acima de tudo, sentiu-se vivo, humano, gente como toda aquela gente. Já com o grão na asa ouviu, desabafou, discutiu e voltou a rir e a gritar. Assumiu compromissos vários, falar com o Presidente da Câmara, ajudar clubes e associações, interceder por apoios e ajudas…perdeu a noção do tempo. Fez ainda questão, teimou até conseguir que um velhote de barba branca e rala, o deixasse ler partes dum pequeno bloco de capa escura, muito usada, que tirara orgulhosamente do bolso interior da samarra. Leu, divertido, alguns versos populares e pensamentos. Eram palavras humildes, palavras escritas com a simplicidade que só as pessoas sábias e conhecedoras da vida podem escrever. A muito custo, convenceu o velhote a deixá-lo patrocinar a publicação da sua obra! Houve palmas, vivas e até soluços de alegria! Era certamente tarde, poucos eram os que restavam no café. Despediu-se e saiu de cachecol ao pescoço, com um sorriso nos lábios, sem frio e sem sobretudo nem luvas, esquecidos no cabide do café. Que noite memorável! Do outro lado da rua, reparou num rapazito, talvez onze ou doze anos, de boné e blusão ruçados, com um pequeno rafeiro preto ao lado. Estava frio e já era muito tarde para uma criança estar na rua. Aproximou-se com passo pouco seguro, de sorriso aberto, tentando ganhar a sua confiança. O miúdo de olhos castanhos vivos, sem amargura nem lamentações, após alguma hesitação, confidenciou-lhe que aguardava que a cozinheira do café lhe desse a comida que tinha sobrado. Era amiga e vizinha dos avós e da mãe, com quem vivia mais a sua irmã ainda bebé. Do pai não sabia ou não quis falar. Os gastos nesta altura (e com o acréscimo dos remédios para o avô e para as gripes), tinham sido muitos e a mãe, sem trabalho permanente, tinha ficado desempregada após o nascimento da irmã, pelo que todo o auxílio era bem-vindo. Ele próprio, ajudava sempre que podia, depois da escola, fazendo pequenos trabalhos e “mandados”. De olhos húmidos, quis dar os últimos trocos ao miúdo, mas este, delicadamente, não aceitou! Tirou então o último cartão pessoal do bolso da camisa, perguntou pelo seu nome, com a esferográfica que o rapaz lhe emprestou, escreveu uma nota no verso do cartão, rubricou e disse-lhe para ir ao seu escritório no final da manhã seguinte, acrescentando: “Se puderes, leva a tua mãe também.” Tirou o cachecol, último adereço, pôs-lho ao pescoço…face à cara feia do miúdo, assegurou-lhe que o queria de volta quando fosse seu escritório e disse-lhe, “Diz ao segurança que tens uma reunião marcada comigo e mostra o cartão! Acrescentou ainda, “Ah! Tens um ar cansado, mas os teus olhos continuam cheios de luz. És um bom menino. Desculpa, quero dizer rapaz. Não me esquecerei de ti, pequeno pirata!”

Sorriu uma vez mais, virou costas, deu alguns passos cambaleantes, cabeça à roda e… apagou-se a luz! Acordou exausto, numa cama branca, numa sala branca, luzes brancas, um tubo branco junto ao nariz e outro espetado no braço! “se não era o Céu e muito menos o Inferno… só podia estar no Hospital! Virou a cara e tinha vários aparelhómetros ligados ao corpo. Entrou uma enfermeira, sorriu e disse-lhe, “já era tempo de voltar para nós! Desde a madrugada passada que está a dormir! Já está na hora de comer qualquer coisa e hoje é véspera de Natal…não quer ir para casa?”. Contou-lhe que tinha tido um colapso, talvez por indigestão e excesso de álcool. Não tinha ar de quem está habituado a beber muito…vomitou, provavelmente engasgou-se, e desmaiou, caindo de bruços, desamparadamente, numa grande poça de água da chuva com vomitado. Um miúdo que por ali estava, com um cão, cair, correu em seu auxílio e gritou por socorro. Virou-o e impediu que sufocasse ou se afogasse. Do seu pequeno e velho telemóvel, ligou para o 112. Entretanto chegaram mais três ou quatro pessoas, vindas duma pequena tasca, logo após ouvirem os gritos de socorro. Felizmente um era socorrista e com a ajuda miúdo. conseguiram mantê-lo vivo até chegar a ambulância. Salvaram-lhe literalmente vida!

“E o pequeno pirata que me salvou?”. A enfermeira, séria, disse-lhe, “É um bom menino. Como não podia vir na ambulância, fez questão de saber para ondo o traziam. Não sei como veio, mas passou boa parte da noite e todo o dia na sala de espera das Urgências”.

Pensou em voz alta, “parece que só o tenho a ele neste mundo”. A enfermeira ouviu e informou-o que não era verdade, mas proibiram-na de dizer mais. Por sorte, ou pelo destino, os filhos tinham resolvido fazer-lhe uma surpresa e passar o Natal juntos com o pai. A enfermeira nim misto de zangada e divertida ainda desabafou, “Mas o Sr. não tinha qualquer identificação consigo, nem telemóvel! Só esta manhã o seu pequeno salvador, se lembrou que tinha um cartão com o seu nome…senão ainda não sabíamos quem era …a Polícia tratou do resto”.

O nosso Homem virou-se, tossiu e pediu à enfermeira, “Por favor, deixem entrar o rapaz, ele será o meu melhor remédio!”. Passaram-se alguns minutos, ouviu a porta ranger, três cabeças assomaram-se. Duas, mais sérias e preocupadas que já não via há demasiado tempo e que saudades! A terceira, a mais pequenita, sorridente nos seus expressivos olhos castanhos fixaram-no, alegres, avançando descaradamente quarto dentro quase a gritar, “Podemos entrar? Trago visitas importantes. Como combinado, venho devolver o cachecol. Já agora, Bom Natal!”

A todos um Santo e feliz natal e um 2021 bem melhor e fraterno

José Velez

 



Leia esta notícia na integra na edição impressa do Jornal «A Planície»
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