"O sotaque alentejano é o que me ajuda a chegar mais depressa às pessoas" Ana Arrebentinha
Publicado | 2020-10-23 18:52:13
 
Ana Arrebentinha. É este o nome da comediante que se tornou 'especialista' em anedotas alentejanas, ou não fosse ela natural de Amareleja.
 

Conhecida por também ser comentadora na TVI, o seu desejo de singrar na televisão surgiu quando se apercebeu que tinha jeito para contar piadas. Era de família.

Tudo começou com os serões em que ouvia o pai a divertir os amigos com as histórias mais caricatas. Quis a vida que aos 18 anos se mudasse para Lisboa em busca deste sonho.

Como é que surgiu a televisão na sua vida?

Foi há 10 anos, quando tinha 17 anos. Eu já contava anedotas no Alentejo lá em festinhas pequeninas. Depois fui para a Rádio Planície em Moura e comecei a fazer espetáculos em alguns bares. Um dia cheguei a casa e mandei um email para o programa da Conceição Lino, o 'Boa Tarde', a dizer que sabia mais de 100 anedotas e que gostava de ir à televisão. Pensava que nunca me iriam chamar e passados dois ou três dias chamaram-me.

 A Tânia Ribas de Oliveira é a minha madrinha da televisão

E foi então que o 'bichinho' da televisão surgiu...

Sim. Quando acabei o secundário, queria ser professora de educação física, só que a partir do momento em que entrei num estúdio de televisão pensei, 'não, não é desporto, isto é que vai ser a minha vida'. Depois vim para Lisboa estudar teatro. Entretanto, fui para a RTP, a Tânia Ribas de Oliveira é a minha madrinha da televisão. Eu mandava-lhe mensagens a dizer que precisava de divulgar as minhas peças de teatro e em troca eu contava as anedotas todas que ela quisesse. Ela achou piada ao meu descaramento e começou a convidar-me para ir lá.

E sempre teve esse descaramento?

Sim, mas era um descaramento saudável. Sempre fui assim, porque tinha de me desenrascar por algum lado.

O meu pai era um grande contador de anedotas, como qualquer alentejano

E porquê contar anedotas?

O meu pai era um grande contador de anedotas, como qualquer alentejano e contava muitas anedotas no Natal e no encontro de famílias. Achava piada de como as pessoas se riam de uma história completamente absurda.

Na vinda para Lisboa, conseguiu adaptar-se bem?

Estava com a adrenalina toda, mas depois senti a falta da família e dos amigos. Era um espaço que não era meu, não conhecia a senhora do café, ninguém à volta. Mas passado um tempo adaptei-me porque sabia que era aqui que me tinha de formar enquanto artista.

Os seus pais compreenderam essa decisão na altura?

Sim, eu sou a mais nova de três irmãos. Claro que se preocuparam, mas a partir do momento em que eles perceberam que eu vinha informada e não atrás da ilusão da fama, ficaram mais descansados.

Há muitos jovens que vêm com a ilusão de que este meio é fácil e não é

Esse lado da fama que fascina tantos jovens hoje em dia não foi um problema para a Ana...

Não, e ainda hoje não é. Temos de ter os pés assentes na terra e tem muito a ver com a educação que nos transmitem. Há muitos jovens que vêm com a ilusão de que este meio é fácil e não é. É um meio de grande responsabilidade, as pessoas pagam bilhetes para nos irem ver. Nunca me iludi com a fama, gosto que reconheçam o meu trabalho e não apenas ser famosa porque sim.

 O meu sotaque é o que me ajuda a chegar mais depressa às pessoas

Sendo alentejana e querendo entrar para o mundo do humor sentiu que esse estereótipo estava muito ligado a si? Ou pretendia ficar com essa marca?

Era isso que eu pretendia. Não há nenhuma alentejana a contar anedotas. O meu sotaque é o que me ajuda a chegar mais depressa às pessoas. É aquilo que eu sou.

É fácil fazer as pessoas rir?

Não é fácil... há públicos e públicos. Há aqueles que nós chegamos, dizemos boa noite e as pessoas já se estão a rir, há outros que ficam a rir mais ou menos e outros que parece que não está ninguém na sala. Essa é a parte interessante de um comediante: ter que trazer as pessoas para dentro do espetáculo, para a nossa história. É difícil, mas dá gosto.

Sendo mulher sentiu uma diferença nesse sentido?

Tenho a sorte de ser alentejana e de ter esta bengala, como já disse, mas notei que as pessoas não davam logo a oportunidade. Vemos um homem, é logo comediante, enquanto comigo era uma mulher e que era comediante. Sentia que estavam sempre a pôr-me à prova, mas nunca senti faltas de respeito por ninguém. Apenas tinha de provar mais do que os outros.

O mais desafiante é comentar uma 'casa', não fazia ideia que era tão difícil, porque estamos a comentar o comportamento das pessoas

E qual das 'tarefas' é mais fácil para a Ana? Estar em palco a contar anedotas ou em televisão a comentar reality shows?

O mais desafiante é comentar uma 'casa'. Não fazia ideia que era tão difícil, porque estamos a comentar o comportamento das pessoas. Temos de associar à nossa opinião e ter o cuidado de falar destas pessoas, temos de ter respeito, porque eles estão à procura de um sonho. Não sabemos como são fora dali, às vezes é injusto ou justo, mas é a nossa opinião e vale o que vale. É um trabalho de responsabilidade.

Gostava de ter continuado no 'Extra' do 'Big Brother'?

Eu adorei fazer, mas a televisão é feita de ciclos. Tem de haver espaço para todos. Estou a adorar estar neste lado do sofá a ver os meus colegas a comentar, mas claro que sinto saudades. Eu levo a vida assim.

Qual é o conselho que gostava que lhe tivessem dado quando começou a sua caminhada?

Se calhar para ir com mais calma, porque eu sou um furacão. Curtir mais o momento. Às vezes estou nos projetos e já estou a pensar como é que aquilo que vai acabar. Agora já curto mais, nem penso se vão acabar ou não.

Já aconteceu os mais novos lhe pedirem conselhos?

Sim, e como já referi, não é um mundo fácil. Não é só a parte bonita que as pessoas vêem, exige muitas horas sem dormir e não há feriados ou aniversários.

E é fácil conciliar esse mundo corrido com a vida pessoal?

É como uma profissão normal. Os meus amigos já sabem e percebem. Custa um bocadinho, mas faz parte do trabalho e eu sempre aceitei isso bem.

Tem algum plano B ou está focada nisto a 100%?

Estou focada nas aulas e também dou cursos para o setor empresarial a pessoas que querem falar em público e não conseguem.

Se pudesse trazer alguma coisa do Alentejo o que é que seria?

Trazia tudo, não consigo dizer uma coisa. Tenho vários amigos alentejanos, restaurantes, mas acho que trazia o céu - ah, que bonito, agora foi poético. Mas a sério, seria o céu. Lá é diferente, ha muitas estrelas.

Planeia voltar?

Sim, daqui a muitos anos, gostava de sim.

 Entrevista ao site Notícias ao Minuto

 



Leia esta notícia na integra na edição impressa do Jornal «A Planície»
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